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domingo, 25 de julho de 2010

OLIMPIADAS DE LÍNGUA PORTUGUESA





Profª. Drª. Simone de Jesus Padilha
Universidade Federal de Mato Grosso

A Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro está perfeitamente adequada ao que tem sido sugerido desde a década de 90, por meio dos documentos oficiais, para o ensino da língua materna em nosso país: um trabalho voltado para o eixo dos usos da linguagem, que toma o texto como unidade e os gêneros como objetos de ensino. Isso constitui aquilo que o professor Egon Rangel chama de uma virada pragmática. Para outros teóricos trata-se de uma nova abordagem ou uma mudança paradigmática. É interessante pensar que o professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, Luli Radfaher diria, brincando, que paradigma, na verdade, constitui uma “paradinha”. E qual é a paradinha da vez, no ensino de Língua Portuguesa? E por que se faz necessária?

Desde os anos 80, mais precisamente a partir de 1984, com a publicação do clássico O texto na sala de aula, do professor João Wanderlei Geraldi, linguista renomado da UNICAMP, é que as questões que norteiam o ensino de língua portuguesa tem se destacado. E isso ocorre não apenas na academia, mas nos cursos de formação de professores de todo o país. E Geraldi se perguntava (creio que ainda se questiona), como é que passamos onze anos na escola, no mínimo, estudando a língua portuguesa praticamente todos os dias, e saímos sem conhecê-la. Ou melhor, como é que a estudamos na escola por tanto tempo e não somos capazes de sair dela como leitores críticos e produtores efetivos de textos?

Numa entrevista à revista Na Ponta do Lápis, o professor da Universidade de Genebra, Joaquim Dolz diz uma frase que parece responder, um pouco, a isso: de que adianta conhecer o código, se não entende o texto? E eu complemento: se não é capaz de redigir um texto de sua AUTORIA. E compreende-se, aqui, autoria em letras maiúsculas, como o exercício de tornar-se autor, de ter sua própria voz, de ser produtor independente. Ou seja, podemos dizer que nosso ensino esteve e ainda está muito focado na aquisição do código e na aquisição da nomenclatura sobre ele, isto é, no ensino da metalinguagem.

Dos anos 80 para cá, quando esta discussão se tornou mais premente – e ainda é urgente, pois a situação não mudou – nossos alunos continuam fracassando em Língua Portuguesa na escola, haja vista o resultado das avaliações oficiais nacionais e internacionais, com todas as ressalvas que possamos fazer a elas: o brasileiro não é capaz de ler um texto, de interpretá-lo além da estratégia básica de localização de informações e produção de inferências simples.

Neste contexto, e tendo em vista outros processos de mudanças das políticas públicas voltadas à educação, como a própria LDB e a reestruturação de nossos sistemas de ensino, é que surgiram propostas mais efetivas de mudanças nas práticas de ensino-aprendizagem da língua materna na escola. Os PCN, e destaco aqui principalmente o documento de terceiro e quarto ciclos, são claros em propor um ensino pautado numa nova concepção de linguagem (vista como interação, numa nova abordagem). Trata-se do ensino dos gêneros como conteúdos – como objetos de estudo das aulas – trazendo à baila o pensamento de Mikhail Bakhtin numa perspectiva sócio-histórica de aprendizagem, que leva em conta, sobretudo, o pensamento de Vygotsky, ao salientar a importância de se observar as necessidades e possibilidades de aprendizagem do aluno.

É com igual coerência que o programa Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro vai estruturar-se teórica e metodologicamente, considerando os usos da linguagem em diferentes esferas da atividade humana e que se configuram em usos recorrentes e próprios, se estabilizando naquilo que vai se denominar gênero de texto, ou gênero textual. Para os mais puristas estudiosos de Bakhtin, em gêneros do discurso. Ou seja, da conversa íntima, familiar e do bate-papo de bar até a notícia do jornal, o romance, o poema, a ata, a procuração, a dissertação de mestrado, enfim, convivemos com diferentes práticas sociais que se dão em diferentes práticas de linguagem e que se nos apresentam em diferentes gêneros. A noção de gênero estrutura o material da Olimpíada, pois cada caderno tem como foco o ensino de um gênero específico e, a cada edição do programa, novos gêneros são inseridos no processo.

A noção de gênero tem a qualidade, como já teorizou o professor Schneuwly, também da Universidade de Genebra, de ser um mega-instrumento. A partir do gênero podemos aprender diversos modos de usar a linguagem e ter diversas capacidades de linguagem. Assim, como diz a professora Roxane Rojo, da Unicamp, não se trata apenas de ensinar o gênero, mas de pensar ‘no que ensinar por meio de um gênero’. Não é preciso, portanto, explorar todas as propriedades de um artigo de opinião, esgotando o tema, mas selecionar um foco de aprendizagem que pode ser, por exemplo, a capacidade de tomar uma posição ou refutar um argumento. Neste sentido, o programa consegue, através do procedimento das sequências didáticas, que se traduzem no material pelas diferentes oficinas de cada gênero, promover uma aprendizagem passo a passo em que o professor poderá dispender mais tempo para uma capacidade do que outra, conforme as necessidades e as possibilidades de sua turma.

Daí, temos a noção de aprendizagem que é base para a orientação metodológica do programa. Ou seja, tentar saber o que o aluno já sabe sobre aquele gênero. Depois, trabalhar com um objetivo de aprendizagem através de diferentes configurações de trabalho, em dupla, em trabalho coletivo, que vai ao encontro do que Vygotsky preconiza como um trabalho pedagógico que atua na ZPD (Zona de Desenvolvimento Proximal), através da colaboração do par mais avançado. Em alguns momentos o próprio professor e, em outros, os colegas.

Vale frisar que esta consideração das ideias de Vygotsky sobre aprendizagem se traduz em muitas ações dentro da sequência, seja para a leitura ou para a escrita, já que o propósito, ao fim da oficina de cada gênero, é uma produção individual do aluno naquele gênero estudado. Interessante lembrar de um simples exercício - me recordo da atividade nos cursos on line da Comunidade Virtual -, em que um personagem envia emails ao outro tentando ajudá-lo na compreensão do que seria o ensino a partir dos gêneros textuais. Desta forma, tal teoria da aprendizagem embasa todo o programa e não somente aquele material com que o aluno vai entrar em contato, mas sobretudo o material que o professor vai ter em sua formação – vivenciando na própria pele este processo.

Assim, temos que a OLPEF, tomando o gênero como objeto de ensino-aprendizagem de língua materna, pode proporcionar ao professor, e consequentemente ao aluno, uma nova relação com a linguagem e com a língua portuguesa, tomando contato com a língua em uso e definindo O QUE ESTUDAR por meio dos diferentes textos em diferentes gêneros que se apresentarão para leitura e escrita. Outro ponto em que insisto é o COMO, É O FAZER PEDAGÓGICO, que considera o aluno detentor de um saber que precisa ser percebido e, a partir daí, aprimorado, refletido e ampliado. É a consideração da ZPD. E essa consideração – parece estranho dizer que HÁ ENSINO – ninguém aprende a ler só lendo ou a escrever só escrevendo. Ler e escrever – além do domínio do código – pode ser ENSINADO e APRENDIDO. No programa, isso se traduz nas sequências didáticas e nas oficinas.

Compreendo que toda mudança é de difícil aceitação e que estamos numa fase complicada do ensino de Língua Portuguesa. Uma fase de transformações que são culturais e que também mexem com nossas práticas, concepções, modelos e nos materiais didáticos. Mas, afirmo, com toda segurança e com base no pouco que já estudei sobre o tema e na minha experiência de 24 anos como docente, é que esta proposta é produtiva, positiva. Ela pode auxiliar a gerar grandes frutos e mudanças em nossas salas de aula.

Publicado em: 22/07/2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

OFICINAS E MATERIAIS

PROBLEMAS DE AUDIÇÃO - NEUROLINGUISTICA


Problemas na audição também afetam aprendizagem infantil
http://www.crianca.pb.gov.br/site/?p=4592


Luana Câmara
A audição é um dos sentidos básicos do ser humano com capacidade de perceber os sons do meio em que vivemos e transmiti-los como onda ao córtex cerebral. Por vezes, as dificuldades de aprendizagem são sentidas entre 10 a 15% das crianças em idade escolar. Para o médico norte-americano, autor do livro Audição na Infância e consultor do Centro de Audiologia Marion Downs, no Centro Médico da Universidade do Colorado em Denver, Jerry Northern, o Brasil é um dos poucos países eficazes na identificação do problema auditivo e na sua correção.
“O Brasil é bem sucedido nesse campo. Aqui vocês fazem o teste antes do bebê deixar o hospital. Depois de descobrir e confirmar que a criança tem mesmo um déficit de audição, trabalhamos muito próximo dos pais. Às vezes, ela precisa usar um aparelho auditivo e quem vai ajudá-la na adaptação são os pais. Hoje esses aparelhos são feitos sob medida e cabem perfeitamente no ouvido de cada criança.”, disse o médico norte-americano.
Como identificar o problema
As constantes dúvidas a respeito da audição infantil devem ser sempre verificadas. Pois, crianças que aparentemente são “aéreas”, ou seja, possuem a necessidade que a mensagens sejam repetidas diversas vezes, ou ainda não gravam o que lhe é apresentado, podem apresentar problemas de audição ou percepção de sons.
“Os primeiros a darem a notícia de que uma criança possui problema de audição são os professores que percebem logo que uma criança tem um problema auditivo, pois observam que a criança tem transtorno de atenção ou fazem perguntas repetidas. Depois desse alerta, os pais devem passar a observar o comportamento dos filhos em casa”, disse o pediatra, Constantino Cartaxo.

Tratamento
As crianças com problemas auditivos se mantêm silenciosas por não escutar nem a sua própria voz, comprometendo, dessa forma, o desenvolvimento da linguagem falada, já que a fala ouvida serve de referencia para o desenvolvimento individual da fala.
Para o pediatra, se houver alguma dúvida a respeito desse transtorno na audição, os pais devem procurar um profissional competente. “O primeiro passo é a identificação do problema o mais precoce possível com o auxílio de um exame chamado audiometro solicitado por um pediatra ou por um otorrino. Caso esse exame demonstre um grau médio, a criança passará a usar um aparelho auditivo e em casos extremos será colocado um implante”, falou.
Solidariedade dos coleguinhas
Os efeitos desses problemas de audição se estendem à aprendizagem e ao preconceito no ambiente escolar, já que em muitas situações essas crianças são taxadas como “rebeldes” ou “distraído”, pois apresentam problemas no aproveitamento pessoal, comportamental, atenção, concentração e de diálogo.
Para a educadora infantil Suênia de Brito, essas alterações comprometem a aprendizagem escolar nos aspectos referentes à leitura, escrita e absorção de conteúdos. “Na verdade, essas crianças tidas como distraídas tendem a acolher os coleguinhas com dificuldades com o intuito de ajudá-las, por serem muitos pequenas elas ainda possuem essa inocência e sensibilidade”, afirmou.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

TEXTO DE APOIO ÀS PROFESSORAS DO CURSO DE PÓS GRADUAÇÃO EM PSICOPEDAGOGIA DA FQM


LABORATÓRIO DE COGNIÇÃO E LINGUAGEM

Projeto IV: Aquisição e Neurolingüística
Estudo 1: Responsável: Marcia Maria Damaso Vieira, MN - UFRJ
Estudo 2: Responsável: Doutoranda Aniela Improta França - UFRJ
O Projeto IV - Aquisição e Neurolingüística - abriga dois estudos que tratam da aquisição da linguagem sob perspectivas diferentes. O primeiro, coordenado pela Prof. Marcia Maria Damaso Vieira, visa a investigar a aquisição das categorias funcionais, isto é, a parte mais formal da gramática, por crianças em processo de aquisição do português. Nele serão testadas hipóteses distintas sobre a aquisição de linguagem, como a hipótese da mini-oração (Radford, 1990) e a hipótese da oração plena (Hyams, 1994), através da investigação da natureza e da aquisição dos traços relacionados às categorias funcionais e sobre o papel desses traços na arquitetura da gramática.
O segundo estudo, conduzido pela aluna do doutorado do Departamento de Linguística da UFRJ, Aniela Improta França, visa a investigar a aquisição de complementizadores através da testagem de seis séries de sentenças que para serem interpretadas se estendem entre o módulo especificamente lingüístico e outro modulo da mente humana conhecido como "Teoria da Mente" (De Villiers, 1994). Além de um teste de julgamento de gramaticalidade aplicado em crianças de três a seis anos, este estudo lança mão de um protocolo neurolingüístico para uma aferição das séries sob a ótica da atividade elétrica córtico-cerebral, denominada potencial relacionada a eventos (ERP- Event Related Potential)
1. Estudo 1 - A Aquisição das Categorias Funcionais
Responsável: Marcia Maria Damaso Vieira, MN - UFRJ

1. 1 Introdução
De acordo com a Teoria Gerativa, as gramáticas de todas as línguas naturais se conformam a um mesmo esquema formal abstrato. A variação paramétrica observada entre elas é derivada da natureza dos traços das categorias funcionais que compõem o esqueleto oracional.
No Programa Minimalista (Chomsky, 1993 e 1995), a variação paramétrica passa a ser vista como sendo determinada pela força dos traços abstratos das categorias funcionais. Os traços fortes, mas não os fracos, devem ser eliminados antes de Spell-Out, através de mecanismos de checagem, visto que não são objetos legítimos do componente fonológico. É a checagem de traços, via movimento, o elemento responsável pela variação da ordem linear dos constituintes oracionais.
A tarefa da criança no processo de aquisição da gramática da língua materna parece reduzir-se à fixação dos valores dos traços relacionados aos núcleos funcionais.
O objetivo principal do presente estudo é, então, investigar a aquisição das categorias funcionais, bem como a natureza dos traços relacionados a essas categorias.

1. 2. Estudos anteriores

O desenvolvimento das categorias funcionais nas gramáticas das crianças em fase de aquisição tem sido alvo de constantes estudos entre os investigadores da área de aquisição da linguagem.
As hipóteses levantadas nesses estudos, são baseadas nos dados produzidos nos estágios iniciais da aquisição da gramática, estágios esses que se caracterizam pela ausência de elementos funcionais, tais como: formas flexionadas, verbos auxiliares e modais, determinantes, complementizadores, etc.
Existem, na literatura, duas hipóteses centrais referentes à aquisição das categorias funcionais. São elas:
(i) A hipótese da Mini-Oração: Radford (1986 e 1990) argumenta que as orações produzidas por crianças na faixa etária entre 1.5 e 2.6 meses, contêm apenas projeções lexicais. Segundo o autor, trata-se de construções pré-funcionais em que IP, CP e DP se encontram ausentes. Como consequência desse fato, todas as estruturas que dependem, para a sua realização, desses núcleos funcionais ou de suas projeções estão ausentes das gramáticas iniciais. A inexistência de CP implica, por exemplo, na ausência de construções interrogativas com palavras QU e de orações encaixadas introduzidas por complementizadores como ilustram os exemplos a seguir :
1. Achu caiu meu shapatu (= acho que caiu o meu sapato) 2.3
2. buxa tá fazendo? (= o que a bruxa está fazendo?) 2.8
Dentro dessa perspectiva, existe uma correlação entre ausência de elementos funcionais (determinantes, verbos auxiliares, flexão, etc.) e ausência de categorias funcionais (IP, CP e DP).
Para Radford, que segue a hipótese da maturação, as categorias funcionais estão biologicamente determinadas a eclodirem na gramática da criança em períodos específicos. Assim, na fase telegráfica (em que os elementos funcionais estão ausentes) as categorias funcionais são inexistentes.
É a partir da emergência das categorias funcionais que o vocabulário relevante é adquirido. Essa proposta prevê que os valores dos traços funcionais são fixados mais tardiamente e assim a gramática da criança na fase telegráfica difere radicalmente da gramática do adulto.
(ii) A hipótese da Oração Plena: Hyams (1994) defende a hipótese da continuidade segundo a qual as categorias funcionais já estão presentes desde o início da aquisição. Para a investigadora, a ausência de elementos funcionais não implica na ausência de categorias funcionais, mas é tratada como uma conseqüência de aprendizagem lexical posterior. Segundo Hyams, os elementos funcionais são mais complexos de serem adquiridos, visto que não possuem referencialidade ou conteúdo lexical.
Como evidência para a existência de categorias funcionais nesta fase inicial, Hyams menciona o fato de que já são observadas operações sintáticas, que dependem da presença estrutural de categorias funcionais específicas no esqueleto oracional. Nas gramáticas iniciais do alemão, língua V2, observa-se que as crianças já fazem movimento de verbo para a segunda posição da sentença.
Traduzindo tal proposta para o quadro minimalista, podemos dizer que os valores (forte ou fraco) dos traços das categorias funcionais são fixados simplesmente mediante exposição aos dados lingüísticos relevantes; isto é, eles são fixados de forma instantânea, posto que, o inventário de categorias funcionais está completo desde o início. Sendo assim, a gramática da criança não vai diferir da gramática do adulto.

1.3. Os objetivos deste estudo
Com base na produção de dados da fala de crianças em estágios iniciais de aquisição do Português e à luz de propostas recentes do Programa Minimalista, pretendemos confrontar essas duas hipóteses- da mini-oração e da oração plena- sobre a aquisição de categorias funcionais com a finalidade de discutir o processo de aquisição das categorias funcionais e a fixação dos parâmetros referentes aos traços formais, bem como investigar a natureza e a função desses traços na construção da gramática.
Muitas questões precisam ser respondidas para que se possa descrever e analisar os dados referentes às gramáticas iniciais do Português de maneira correta e entender melhor a natureza dos traços relacionados às categorias funcionais e seu papel na variação. Entre elas podemos citar:
(i) Existe alguma correlação entre morfologia flexional (que não precisa ser expressa por afixos, mas que tenha a função de contrastar em paradigmas morfológicos, tal como o morfema zero do singular que se opõe ao s do plural) e movimento verbal? Isto é, movimento de núcleo verbal pode estar condicionado à presença/ausência de morfologia flexional como sugere Solà (1996)? Solà critica a natureza não explicativa e circular com que a definição de traços formais tem sido tratada no Minimalismo e oferece uma análise alternativa segundo a qual um elemento só pode se mover para um núcleo funcional se possuir morfologia correspondente a esse núcleo . Essa questão é relevante também para a decisão de escolha entre as hipóteses da mini-oração e da oração plena.
(ii) Por que crianças falantes do Português, apesar de já terem adquirido palavras interrogativas do tipo o quê e complementizadores como que, encontrados em perguntas formuláicas, não produzem, antes dos 2.8, construções envolvendo CP, tais como interrogativas de objeto, topicalizações e relativas?
Nem a proposta de Hyams , nem a de Radford parecem dar conta desse fato. Segundo esta última, se existe o elemento funcional relacionado a uma determinada categoria funcional é porque esta já faz parte da gramática da criança. Sendo assim, como explicar a ausência dessas estruturas?
Essas e muitas outras perguntas relacionadas à aquisição das categorias funcionais e à natureza dos traços dessas categorias serão temas de investigação deste estudo.

1.4. Metodologia
Os dados de aquisição do Português a serem utilizados através de uma observação longitudinal de três crianças de dois anos, que se encontram ainda no estágio de duas palavras.
Serão realizadas gravações da produção lingüística dessas crianças em ambientes distintos, tais como em casa, na creche e em lugares externos que terão a participação de outros interlocutores com os quais as crianças tenham alguma afinidade para que elas possam falar espontaneamente.
O desenvolvimento da gramática dessas crianças será acompanhado durante o período de dois anos, tempo de vigência deste projeto.
1.5. Colaboradores
Roza Lúcia Pereira Virgílio Neves , aluna do Mestrado no curso de Pós-Graduação em Língüística da Faculdade de Letras da UFRJ , será minha orientanda a partir deste ano e atuará como colaboradora do presente estudo. Ela coletará os dados de aquisição de seu filho que se encontra atualmente com 1.7.

1.6. Futuras colaborações entre projetos
Está prevista também uma futura colaboração entre este estudo e o projeto "Estrutura e Processamento Sintático de Linguas Naturais" coordenado pelo Prof. Marcus Maia. Através de estudos longitudinais com crianças em fase de aquisição do Português serão testadas a compreensão e a produção de certas estruturas gramaticais. Testes envolvendo, por exemplo, a compreensão de estruturas interrogativas são relevantes para o nosso estudo, visto que se a criança mostrar compreensão e não produção podemos suspeitar que CP já esteja presente em sua gramática, apesar de não se manifestar em forma fonológica. Esse tipo de estudo nos ajudará a entender um pouco mais sobre a natureza e o papel das categorias funcionais na arquitetura da gramática.
2. Estudo 2 - A Aquisição de Complementizadores
Responsável: Doutoranda: Aniela Improta França - UFRJ
Orientação: Prof. Miriam Lemle - UFRJ
Co-orientação: Prof. David Poepple - U. of Maryland
2.1. Introdução:

Assumindo o arcabouço teórico da Gramática Gerativa concebemos que a gramática de todas as línguas é composta por um componente ou módulo computacional restrito por um sistema de princípios que gera um output com algum nível de variação interlingüística determinada por um sistema universal de Parâmetros. A teoria prevê que este módulo, especificamente lingüístico, passa por determinados períodos de desenvolvimento que se manifestam nas várias fases da gramática infantil.
Acredita-se ainda que outros módulos cognitivos não-lingüísticos também amadureçam e interajam, através de interfaces, com o módulo especificamente lingüístico e que, durante o processo de desenvolvimento de linguagem, afetem o desempenho da linguagem adquirida. Assumimos também que cada módulo tenha como primitivos seus próprios traços cuja natureza, comportamento, propriedades e valências interagem de modo específico com outros módulos e interfaces do sistema cognitivo.
O licenciamento destes traços, veículos da intensa comunicação intermodular, é portanto um campo de estudo imprescindível para as ciências cognitivas e exige uma investigação que atinja níveis mais internos e fisiológicos da cognição, invisíveis na expressão do desempenho (Heycock e Kroch, 1999).
O campo da neurolingüística , que surge nas fronteiras das pesquisas cognitivas, conta com métodos investigativos não-invasivos que vêm sendo mais e mais capazes de aprofundar as investigações lingüísticas para um nível mais sutil, revelando on-line, aspectos cortico-cerebrais das relações entre o sistema computacional da sintaxe, suas interfaces e as relações pós-interface estabelecidas com outros módulos mentais.
É dentro deste campo que se insere este estudo - A Aquisição de Complementizadores, uma Mácula na Inocência - que tem por objetivo verificar a atividade elétrica cortical de diversos tipos de seleção categorial que licenciam traços especificamente lingüísticos ou não em prol de uma dada interpretação semântica.

2.2. O Estudo:
Nele preparamos um teste de julgamento lingüístico para seis séries de orações organizadas em um contínuo que pretende se estender através de módulos, partindo do especificamente lingüístico ao não-lingüístico. As cinco primeiras séries contêm relações dentro do âmbito que acreditamos ser especificamente lingüístico e a última envolveria a ação de outro módulo, não-lingüístico, conhecido como "Teoria da Mente". As seis séries - organizadas como mostramos a seguir - foram primeiro aferidas por observação psicológica de avaliação de gramaticalidade por crianças entre 3 e 6 anos, e serão subseqüentemente investigadas através de um teste eletroencefalográfico capaz de identificar a formação de potenciais relacionados a eventos - ERP.
Série A - Seleção Semântica entre expressões adjacentes, do tipo núcleo + complemento e núcleo + adjunto.
Ex. *João comeu sandália.
Osterhout & Holbcomb (1995) testaram a recepção deste tipo de sentença por sujeitos monitorados por um EEG de alta densidade. Os autores acharam um componente elétrico negativo relacionado ao evento da incongruência. Este "susto semântico" foi detectado pela formação de um ERP aos 400ms após o início da palavra semanticamente incongruente 'sandália'. Acredita-se que este componente - N400 - funcione como uma assinatura elétrica caracterizando a dificuldade de re-análise semântica que requereria uma informação morfo-léxica que vai além daquela estabelecida pela análise gramatical dos estímulos lingüísticos precedentes.
É interessante notar que tal topografia de EEG não foi observada por Besson & McCar (1987) quando expuseram sujeitos a estímulos musicais de melodias famosas que terminavam em notas inesperadas. Este achado sugere a especificidade lingüística do componente N400.
Série B - Seleção Semântica entre expressões não adjacentes, envolvendo a relação de herança referencial entre antecedente e pronome.
Ex. *Lá está José, segurando uma fatia da pizza de ontem. Ele é provavelmente a única pessoa no mundo inteiro que ia querer ler ela.

Série C - Seleção Semântica entre expressões não adjacentes envolvendo deslocamento sintático dos tipos movimento SN e movimento de WH.
Ex. *Todo mês uma árvore é lida pelos alunos.
Série D - Histórias em que os comportamentos esperados das personagens são estabelecidos em uma história famosa ou são previsíveis através de regras pragmáticas.
Ex. *A avó da Chapeuzinho Vermelho foi comida pelo coelhinho.
Série E - Provérbios e músicas conhecidas.
Ex. *De grão em grão a gazela enche o papo.
Série F - Histórias que não podem ser deduzidas por regras pragmáticas ou conhecimento prévio.
Ex. Quando o João estava quase saindo de casa para jogar bola no quintal, a mãe dele tinha acabado de assar o bolo favorito dele. Ela diz para João ir brincar enquanto o bolo esfria no armário. Mas o João levou muito tempo brincando no quintal, e a mãe dele decidiu por o bolo na geladeira para a cobertura não derreter.
Quando terminou de brincar João estava com fome e foi direto para a geladeira para pegar um pedaço daquele bolo gostoso.
De Villiers (1995) contou histórias como esta para um grupo de crianças cujas idades variavam entre 3 a 5 anos. Ao término da história, em lugar da declaração final acima, foi feita uma pergunta: "Onde você acha que o João procurou o bolo quando ele terminou de brincar"?
De Villiers verificou que as crianças menores (de 3 a 4 anos.) tendiam a acreditar que o João realmente procurou o bolo na geladeira. Por outro lado, as crianças mais velhas (com mais de 4 anos.) tendem a fazer a predição correta sobre o comportamento de João - que ele procurou o bolo no armário. Este achado intrigou De Villiers já que em seu estudo prévio de aquisição de movimento de WH ficou demonstrado que crianças de 3 e 4 anos já têm um entendimento sofisticado de deslocamento de WH - curtos ou longos. Parece então que a operação sintática não pode ter sido a causa do problema de interpretação relatado no estudo de De Villiers. A resposta errada para a pergunta: "Onde você acredita que o João procurou o bolo"? parece estar ligada a uma dificuldade não-lingüística.
A autora conclui que a interpretação das crianças mais jovens de julgarem o IP mais baixo como complemento de um verbo de fala ou de convicção não foi possível porque, até uma determinada fase de desenvolvimento, as crianças não têm acesso ao módulo cognitivo que é responsável pelo conteúdo intencional de outros, um conteúdo que é inserido sintaticamente como um complemento do IP mais alto, o que mais tarde permite a extração deste nível. Assim, de acordo com a autora, a escolha da extração interage com o estado de maturidade de um módulo não-lingüístico - o módulo do conhecimento do conteúdo mental nas mentes de outros, módulo este conhecido na literatura como "Teoria da Mente." Portanto, no caso apresentado as crianças menores falham em perceber que o conhecimento da personagem da história conta com menos informação do que o conhecimento delas próprias.
O fato de que, nos primeiros anos de vida, as crianças julguem a realidade apenas com o conteúdo proposicional de suas próprias mentes e que não possam levar em conta o conteúdo nas mentes dos outros caracteriza o que adultos sentem como a inocência da criança. A capacidade que se desenvolve para controlar os conteúdos nas mentes de outros macula esta inocência e é, na realidade, a base cognitiva para o fingimento, a dissimulação e a mentira, bem como é a base para o desenvolvimento de conversação, já que a escolha da informação a ser compartilhada com um interlocutor depende do nosso conhecimento do que este interlocutor sabe a respeito de um determinado tópico de conversação.
Assim, o protocolo citado, envolvendo a testagem de seis série de orações com material semanticamente incongruente, começando com um teste de seleção semântica simples e progredindo para extração de WH, pode lançar luz sobre os vários pontos de transição entre o que é estritamente lingüístico e o que envolve outros processos cognitivos não-lingüísticos.

2.3. Metodologia do Teste Psicológico:
Até o presente momento a parte inicial de testagem psicológica já está concluída. Um teste de julgamento lingüístico foi aplicado a 36 sujeitos distribuídos homogeneamente em quatro faixas etárias: 3, 4, 5 e 6 anos. Os sujeitos foram expostos a 6 séries de estímulos auditivos cada um com 6 orações. Cada série tinha frases incongruentes e congruentes respectivamente na taxa de 1:1. Os sujeitos foram instruídos para identificar o material incongruente. Eles foram testados com a manipulação de dois bonecos de dedo movidos pelo investigador. Um dos bonecos foi caracterizado como um menino que só fala orações congruentes e o outro como um menino que só fala orações incongruentes. Foi pedido que as crianças identificassem qual boneco falou cada uma das 6 orações nas 6 séries.
A hipótese aqui é que cada faixa etária exibiria competência distinta relativa às orações na série, culminando com uma maior dificuldade para lidar com série F, um achado que confirmaria o estudo de De Villiers. Como poderemos observar na página seguinte os resultados confirmaram a predição nos seguintes pontos:
2.4. Resultados Preliminares:
Como mostra a Tabela a seguir, no teste de avaliação psicológica, nas Séries A, B, C e D o número de erros é inversamente proporcional às faixas etárias corroborando os achados clássicos de que durante o período de desenvolvimento da linguagem as crianças passam por estágios gramaticais incrementais em direção à linguagem adulta. Desta forma a interpretação do conteúdo da Série A, por exemplo, envolvendo seleção semântica entre núcleo e complemento ou adjunto é muito mais problemática para o grupo de 3 anos do que para o de 6 anos.
Contrastantemente, as Séries E e F mostraram não ser objeto de maturação lingüística como nas séries anteriores. A Série E ofereceu o mesmo nível baixo de dificuldade para todas as faixas etárias, sugerindo que a produção de conteúdo lingüístico inserido em uma música envolve processos não-lingüísticos, como mostram os achados de Besson & McCar (1987).
A Série F também ofereceu nível alto de dificuldade para todas as faixas etárias, corroborando os achados de De Villiers que apontam que a dificuldade das crianças até uma faixa etária na interpretação de complementizadores pode advir da não disponibilidade, para as faixas etárias testadas, do módulo mental não-lingüístico que coordena as informações da mente do outro - o Módulo da Teoria da Mente.



2.5. Metodologia do Teste Neurolingüístico:
Subsequentemente ao teste psicológico inicial, um teste de ERP (potencial relacionado a evento) será aplicado a 20 sujeitos adultos. O teste será efetuado por um eletroencefalógrafo de alta densidade, cujo uso será disponibilizado ao pesquisador pelo Cognitive Neuroscience of Language Lab da Univeristy of Maryland,.
Os sujeitos serão expostos às 6 séries de estímulos auditivos já descritos, contendo 40 orações, com materiais incongruentes e congruentes respectivamente na taxa de 1:1.
A hipótese aqui é que as Séries 1-5 apresentarão várias topografias de N400, relacionadas à presença de material incongruentes, especificamente lingüísticos, advindo da dificuldade de re-análise on-line. Porém, a Série 6 pode dar origem a uma outra topografia resultante da possível interação entre um módulo estritamente lingüístico e um não-lingüístico - o do conhecimento do conteúdo mental nas mentes de outros.

2.6. Considerações Finais:
A pesquisa aqui apresentada tem o mérito de ser uma das primeiras na área a ter como tema, simultaneamente, a aquisição de linguagem e a técnica de aferição através de potencial relacionado ao evento - EEG/ERP. É também pioneira ao utilizar uma testagem on-line de input acústico, em vez de visual, muito mais comumente testado. Por estas razões este estudo despertou o interesse e a disposição de ajuda do grupo do Prof. David Poepple (Ver anexa tradução juramentada de carta) do Laboratório de Ciências Cognitivas da Linguagem (Neuroscience of Language Lab - http://www.umd.edu/CNL/) - NCL- da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos.
O contato da doutoranda Aniela Improta França com este grupo já tem longa história de interações via e-mail que culminaram com um estágio de um mês que a pesquisadora fez no NCL, onde foi treinada para usar o EEG e outras plataformas básicas de testagem neurolingüísticas. Mais importante ainda, sob a orientação dos Profs. David Poepple e Stephen Crain desenvolveu o protocolo de EEG que pretende aplicar ainda no primeiro semestre de 2000, durante um novo estágio de 3 meses no NCL.
Este contato marca o início de um trabalho cooperativo na área da neurolingüística que deverá expandir-se, tornando-se uma semente para trazer, para dentro do novo Laboratório de Cognição e Linguagem da UFRJ, os avanços da investigação neurolingüística.

domingo, 6 de junho de 2010

DIFERENÇA ENTRE CONTO E CRÔNICA ( ANA GABI)




Diferença entre Crônica e Conto

Crônica X Conto
Semana passada, duas alunas (de escolas diferentes, diga-se de passagem!) questionaram-me sobre a diferença entre crônica e conto.
Na sala de aula, fiz a explicação da diferença básica, mas acabei pesquisando um pouco sobre o assunto. E o resultado estou compartilhando aqui com vocês.
Espero que aproveitem!



crô.ni.ca
s. f. 1. Narração histórica, por ordem cronológica. 2. Seção ou coluna, de jornal ou revista, consagradas a assuntos especiais.

con.to.1
s. m. 1. Narração falada ou escrita. 2. História ou historieta imaginadas. 3. Fábula. 4. Mentira inventada para iludir indivíduos rústicos; engodo, embuste. — C.-do-vigário: embuste para apanhar dinheiro das pessoas de boa-fé.











O Conto é a forma narrativa, em prosa, de menor extensão (no sentido estrito de tamanho), ainda que contenha os mesmos componentes do romance. Entre suas principais características, estão a concisão, a precisão, a densidade, a unidade de efeito ou impressão total – da qual falava Poe (1809-1849) e Tchekhov (1860-1904): o conto precisa causar um efeito singular no leitor; muita excitação e emotividade.


Crônica, é o único gênero literário produzido essencialmente para ser veiculado na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas páginas de um jornal. Quer dizer, ela é feita com uma finalidade utilitária e pré-determinada: agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que o lêem. A crônica é, primordialmente, um texto escrito para ser publicado no jornal. Assim o fato de ser publicada no jornal já lhe determina vida curta, pois à crônica de hoje seguem-se muitas outras nas próximas edições.



Basicamente, o que diferencia o conto da crônica é a densidade poética.
O conto é pesado, a crônica é leve. O conto deve provocar e inquietar, a crônica deve entreter e deleitar. A crônica é a prosa curta, amena e coloquial, com toques de malícia e humor, sobre os fatos políticos da atualidade ou sobre os hábitos e costumes dos diversos segmentos sociais. O conto é todo o resto, é toda a prosa curta que não é crônica.

No conto a história é completa e fechada como um ovo. É uma célula dramática, um só conflito, uma só ação. A narrativa passiva de ampliar-se não é conto.
Poucas são as personagens em decorrência das unidades de ação, tempo e lugar. Ainda em conseqüência das unidades que governam a estrutura do conto, as personagens tendem a ser estáticas, porque as surpreende no instante climático de sua existência. O contista as imobiliza no tempo, no espaço e na personalidade (apenas uma faceta de seu caráter).

A crônica é um gênero híbrido que oscila entre a literatura e o jornalismo, resultado da visão pessoal, particular, subjetiva do cronista ante um fato qualquer, colhido no noticiário do jornal ou no cotidiano. É uma produção curta, apressada (geralmente o cronista escreve para o jornal alguns dias da semana, ou tem uma coluna diária), redigida numa linguagem descompromissada, coloquial, muito próxima do leitor. Quase sempre explora a humor; mas às vezes diz coisas sérias por meio de uma aparente conversa – fiada. Noutras, despretensiosamente faz poesia da coisa mais banal e insignificante.

E, finalmente, a crônica é o relato de um flash, de um breve momento do cotidiano de uma ou mais personagens. O que diferencia a crônica do conto é o tempo, a apresentação da personagem e o desfecho.

No conto, as ações transcorrem num tempo maior: dias, meses, até anos, o que não se dá na crônica, que procura captar um lance curioso, um momento interessante, triste ou alegre. No conto, a personagem é analisada e/ou caracterizada, há maior densidade dramática e freqüentemente um conflito, resolvido em desfecho. Na crônica, geralmente não há desfecho, esse fica para o leitor imaginar e, depois, tirar suas conclusões. Uma das finalidades da crônica é justamente apresentar o fato, nu, seco e rápido, mas não concluí-lo. A possível tese fica a meio caminho, sugerida, insinuada, para que o leitor reflita e chegue a ela por seus próprios meios


Projeto Livro Infantil

quinta-feira, 3 de junho de 2010

SONETO DE CAMÕES










Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luis de Camões

quinta-feira, 27 de maio de 2010

OLIMPÍADAS DE LÍNGUA PORTUGUESA

A Olimpíada e as políticas públicas para o ensino e aprendizagem de língua portuguesa


Autor: Egon de Oliveira Rangel
Egon é professor do Departamento de Linguística da PUC-SP, membro do Comitê Assessor da Secretaria de Educação Superior (Sesu).

Diante dos muitos e às vezes simultâneos projetos de que uma mesma escola participa, há ocasiões em que o professor se sente... simplesmente perdido. Mas, afinal, em que cada um desses programas efetivamente colabora para o melhor ensino e aprendizagem? Como se relacionam com as orientações das secretarias e do MEC para o ensino?
Para encontrar uma resposta satisfatória para perguntas como essas, é preciso reservar um pouco de tempo para conhecer os pressupostos teóricos e metodológicos de cada projeto. Pensando na Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, é esse trabalho que vamos desencadear aqui.
Como todos sabemos, esse é um projeto com características muito particulares:
- Organiza e promove, no âmbito de nossas redes públicas de ensino, um concurso nacional de produção de texto para os três níveis da Educação Básica.
- Tem como um de seus principais objetivos proporcionar para os professores e alunos inscritos um “mesmo chão”, em que todos possam plantar firmemente os pés. Partindo deste mesmo patamar – e recorrendo aos mesmos parâmetros e com as mesmas ferramentas – todos lutarão pela vitória em condições semelhantes.
- Caracteriza-se como um curso de “formação em serviço” para os docentes inscritos, inserindo-se no cotidiano da escola como parte da programação regular de língua portuguesa, e não como mais uma atividade extracurricular.
Já a orientação teórico-metodológica da Olimpíada para o trabalho com leitura e produção de textos organiza-se em torno de três eixos básicos:
1. A noção de gênero
Orientado pela reflexão de Mikhail Bakhtin a esse respeito, o projeto da Olimpíada parte do pressuposto de que as diversas esferas da atividade humana estão, necessária e indissoluvelmente, relacionadas ao uso da linguagem. Assim, cada esfera de nossas atividades – cotidiano-familiar, religiosa, escolar, profissional, política etc. – tende a desenvolver usos próprios, ou seja, gêneros discursivos: a conversa à mesa, a oração, a dissertação escolar, o relatório técnico, a propaganda eleitoral, e assim por diante.
2. A proposta da sequência didática (SD) como ferramenta básica para o ensino e aprendizagem de leitura e produção de textos
Inspirando-se em pesquisas e propostas de trabalho da Escola de Genebra e, em particular, na reflexão de Bernard Schneuwly e Joaquim Dolz, a Olimpíada se organiza com seqüências de atividades – de diferentes tipos e níveis de complexidade – sistematizadas como oficinas e, por isso mesmo, orientadas para um conjunto bastante coeso de objetivos, por exemplo: (re)conhecer o plano geral do texto de um artigo de opinião; identificar as situações de comunicação próprias das memórias literárias etc.
3. As teorias de Lev S. Vygotsky relativas à aprendizagem
As oficinas propostas pela Olimpíada supõem aprendizes que, no contexto das oficinas, podem constituir-se como sujeitos ativos de sua própria aprendizagem, e não como alunos passivos cuja tarefa se resuma à assimilação de conteúdos e fórmulas.
Longe de se sobrepor ou de se contrapor quer às orientações oficiais, quer, ainda, à reflexão e à atuação dos docentes, essa fundamentação teórica, assim como a metodologia correspondente, está em sintonia tanto com as demandas da sala de aula quanto com as orientações oficiais para o ensino da língua portuguesa. E não por acaso. É que, tanto quanto os Parâmetros Curriculares Nacionais, os princípios e critérios para a avaliação dos livros didáticos do PNLD, os parâmetros levados em conta para selecionar livros para o PNBE, e até mesmo os descritores com base nos quais se formulam as provas de sistemas de avaliação como o Saresp e o Saeb, a Olimpíada se insere num movimento histórico que costumo chamar de “virada pragmática” no ensino da língua materna (Rangel, 2002).
Exatamente como a expressão sugere, essa virada pode ser caracterizada como uma brusca e radical mudança na concepção tanto do que seja uma língua quanto de como se deve ensinar a língua materna. Apesar de bruscas e radicais, essas mudanças não se deram da noite para o dia. Foram fruto de transformações paulatinas ocorridas em pelo menos dois vastos campos do conhecimento científico diretamente relacionados à educação escolar e ao ensino de línguas.
As mudanças relativas à concepção de língua devem-se à inflexão das ciências da linguagem, desde os anos 1930, para os usos lingüísticos e para a dimensão social e histórica da língua. A concepção de que a língua é, essencialmente, um sistema de signos destinados a representar coisas e ideias passou a ser questionada pelas pesquisas e reflexões que revelavam aspectos antes negligenciados:
- o caráter interacional e comunicacional das línguas – que faz que toda atividade humana tenha o seu lado linguístico;
- seu poder de criar realidades, e não apenas de representá-las – que explica, entre outras coisas, porque o imaginário produzido pela mídia é mais real para o público do que os fatos efetivamente vividos no cotidiano.
Com base nessa investigação da linguagem como uso, e não apenas como sistema de signos, firmou-se a noção de discurso, que podemos entender, genericamente, como “a linguagem posta em ação – e necessariamente entre parceiros” (Benveniste, 1958, p. 284). E essa noção de discurso abriu a reflexão lingüística para o que há, na linguagem, de acontecimento, de (inter)ação e de compromisso social: toda produção linguística é, então, um fato situado no tempo, no espaço e na vida em sociedade. Assim, foi possível, entre outras coisas, entender melhor, nos processos de leitura e escrita, as formas pelas quais os sentidos são (re)construídos pelos parceiros do discurso a partir do texto.
Já as mudanças relativas ao como ensinar devem-se às conquistas propiciadas pelas teorias da aprendizagem, especialmente a partir das grandes sínteses produzidas na década de 1980. Desde então, dispomos de descrições, ou mesmo “modelos”, bastante plausíveis da aprendizagem, tanto no que diz respeito à forma como ela se processa na mente do indivíduo quanto no papel fundamental que o contexto, a cultura, as situações e os esquemas de interação em jogo têm para o sucesso do aprendiz.
Esta é a razão pela qual afirmei que
[...] a história recente da educação pode ser dividida, grosso modo, em dois grandes momentos. O primeiro deles, que chamaremos de tradicional, foi dominado pelas preocupações praticamente exclusivas com o ensino. As grandes questões, para os educadores, eram o que e como ensinar, considerando-se os saberes disponíveis e os objetivos socialmente perseguidos em cada nível de ensino.
No segundo momento, é a aprendizagem, ou melhor, o que já sabemos a respeito dela, que comanda o ensino. Atentos aos movimentos, estratégias e processos típicos do aprendiz numa determinada fase de sua trajetória e num certo contexto histórico e social, os educadores procuram organizar situações e estratégias de ensino o mais possível compatíveis e adequadas. Nesse sentido, o esforço empregado no planejamento do ensino e na seleção e emprego de estratégias didático-pedagógicas em sala de aula acaba tomando o processo da aprendizagem como princípio metodológico de base (Rangel, 2009; com adaptações).
Por todos esses motivos, os objetos de ensino e aprendizagem, no contexto da virada pragmática, têm sido concebidos como procedimentais. Devem-se ensinar usos, orais e escritos, da língua. Não por acaso, tanto os PCN do Ensino Fundamental quanto os princípios e critérios de avaliação de livros didáticos do PNLD definem como objetivo do ensino do português o desenvolvimento da proficiência oral e escrita do aluno e, em particular, sua inserção qualificada no mundo da escrita.
Se retomarmos agora o conjunto deste artigo, veremos facilmente que o projeto da Olimpíada se insere na mesma virada pragmática que dá origem às orientações oficiais para o ensino do português:
- ao eleger o gênero como unidade de trabalho, traz a língua em uso para a sala de aula;
- ao eleger Vygotsky como referência teórica para a sua concepção de ensino e aprendizagem, mostra-se em dia com as conquistas propiciadas pelas pesquisas em aprendizagem;
- ao se organizar em sequências de atividades inspiradas na noção de sequência didática, organiza a leitura, a oralidade e a reflexão sobre a língua e a linguagem em torno das demandas de produção textual geradas por um concurso de redação de escala nacional.Nesse sentido, a Olimpíada constitui, por si só, todo um contexto de uso da escrita.
Participar da Olimpíada não é, portanto, apenas participar de um jogo entre outros, por mais divertidas que as oficinas também possam ser. É, antes de tudo, envolver-se numa proposta de trabalho que pode se constituir, para o professor, como uma referência interessante para, até independentemente do concurso, articular e moldar as atividades de ensino e aprendizagem de língua portuguesa.
Referências
Benveniste, Émile. 1958. “Da subjetividade na linguagem”, in: Problemas de linguística geraI I. 2ª- ed. Campinas: Pontes/Editora da Unicamp, 1988.
Rangel , Egon de Oliveira. “Livro didático de língua portuguesa: o retorno do recalcado”, in: Dionisio, Angela Paiva e Bezerra, Maria Auxiliadora (orgs.). O livro didático de português: múltiplos olhares. 2ª- ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.
Rangel , Egon de Oliveira. Para não esquecer: de que se lembrar, na hora de escolher um livro do Guia? Brasília: SEB/MEC, 2009. Mimeo.

sábado, 22 de maio de 2010

FILME: QUANTO VALE OU É POR QUILO?



FAC -FACULDADES CEARENSES Publicidade e Propaganda PP32 2008.2 Ciências Políticas Profº Leonardo Mara Régia Bizarria Pereira Entrega: 08/09/08 RESUMO DO FILME Quanto vale ou é por quilo? Um filme excelente que demonstra como eram os costumes e os métodos das classes dominantes no período colonial. Nesse filme pode-se observar que o Brasil precisa ser revisto em sua política, pois a mesma ilude o nosso povo com promessas inúteis ou com festas como o carnaval e o futebol que fazem com que as pessoas descentralizem seu foco do que realmente é importante. O nosso Brasil hoje tem muitas semelhanças com o Brasil do filme como por exemplo o empréstimo consignado em folha para aposentados e pensionistas parece aquela parte do filme onde se pode comprar a carta de alforria de uma pessoa. A sociedade democrática meio que aprisiona o povo numa democracia lúdica e não se dá conta do que está por trás de lindos discursos, exemplo disto é a solidariedade que antes era um gesto de humanidade hoje virou um produto de visibilidade. Outro ponto importante do filme é quando retratou a cruel realidade do período colonial onde os negros eram explorados e discriminados, onde se pode fazer uma conexão com o Brasil atual, o racismo ainda é muito grande contudo as pessoas caridosas hoje estão muito mais ativas, mas o Brasil não precisa dessa população caridosa e sim de políticas públicas eficientes. A sociedade precisa refletir sobre como pensa, age, e tudo mais que tenha a ver como social, pois, a responsabilidade de um Brasil descente e igual é de cada um de nós. O Brasil não precisa ser um país socialista para ser um país justo, ele precisa de educação de berço, se o indivíduo quer ser rico tem que suar a sua camisa e não suar a de muitos brasileiros que não tem estudo. As pessoas deveriam assistir esse filme não como mais uma produção brasileira, e sim com um olhar crítico sobre os fatos por ele abordados.


PROFESSORA MILTS DIZ: AS PESSOAS DEVERIAM ASSISTIR MAIS FILMES COMO ESSE, QUE AS LEVAM A ABRIR A MENTE E ASSISTIR E COMENTAR MENOS NOVELAS E BIG BROTHERS QUE SÓ SERVEM PARA ENFERRUJAR O CÉBEBRO E ALIENAR AINDA MAIS AS PESSOAS.

CRÔNICA DO AMOR ARNALDO JABOR



Crônica do amor
Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?

Não pergunte pra mim você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim.

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

domingo, 16 de maio de 2010

SEJAM BEM-VINDOS!

Vinicius de Moraes - Soneto de Separação

domingo, 2 de maio de 2010

POEMA MARAVILHOSO DE VINICIUS DE MORAES: A MULHER QUE PASSA




Poesia



A mulher que passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.






Rio de Janeiro, 1938

in Novos Poemas
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "A saudade do cotidiano"

PARTICIPEM DAS OLÍMPIADAS DE LÍNGUA PORTUGUESA








Um poema por dia: homenagem a João CabraL
07-Abr-2010
"Eu gostava, sobretudo, era de ler. Eu tenho impressão que eu escrevia porque eu lia. Mas o que eu gostava mesmo era de ler. Agora, para freqüentar um círculo literário, eu me justificava escrevendo. Mas minha paixão mesmo era a leitura".(JCMN)
Quando soube de uma mostra dedicada ao poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto, aventurei-me com quase cega avidez em saber melhor dela na virtualidade da Internet, estando certo e seguro de que ela acontecia num dos tantos espaços culturais da capital paulistana. Na tela um João Cabral um tanto quanto jovem e risonho. Atrás, como se ele tivesse acabado de escrever na parede de fundo, em letras vermelhas de faca e tinta sanguínea, a frase que dava título à mostra.Era um dos últimos rabiscos que o poeta havia feito antes da morrer, pensando em um possível título para um novo livro: Um poema por dia.

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.(...)
(in Tecendo A Manhã)

Fui lendo com a maior pressa os informes da página virtual. Com caneta em punho e naco de papel para anotar endereço, com corpo e espírito prontos para sair de casa, percebo dura e concretamente que a mostra não estava no meu pedaço, na cidade coração que abriga tanto e tudo. Estava no centro do Rio de Janeiro, pleno de História e sonhos. Ficara assim em descompasso entre a minha possibilidade e o meu desejo. Não tinha promessas ou planos de ir ao Rio. Respirei fundo. Olhei a paisagem da minha janela que verdejava alguma coisa. A tela me convidava num abraço carioca. Alguns rios do poeta, veios da poesia estavam a minha espera naquele momento rápido e único.Fui averiguando como os cliques e o olhar tudo o que o site me proporcionava na outra aventura de compensar a não ida à mostra tão instigante e tão interessante. (Quem sabe alguém do Rio nos conte da sua visita).

(...)“O tempo do poema não há mais;
há seu espaço, esta pedra
(in O Autógrafo)

Senti na pele frases de nossos companheiros de Comunidade quando, muitas vezes, não podem estar presentes ao vivo e a cores em acontecimentos aqui indicados.

Olhei os comentários. A maioria deles dialogava com o meu sentimento daquele instante. ”É uma pena que a terra natal de João Cabral não tenha a oportunidade de ver a exposição” . Eu arremato de forma otimista: Quem sabe se esta exposição não será adotada por várias cidades? Vamos aguardar.

Com a cabeça a todo o vapor fui me lembrando, até onde pude, dos meus primeiros contatos com a poesia de João Cabral, por ocasião de um curso de extensão universitária nos idos de 80.Arrebanhei na mesa alguns livros da época.Folheei um, bastante amarelado e gasto, com muitas anotações a lápis, como se retirado da minha mostra pessoal.

Fui relendo as velhas páginas. Um eterno surpresar...

E fui selecionado alguns fragmentos pensando no deleite de quem visita esta nossa praça da Comunidade Virtual.

“Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel ;
(in Catar Feijão)

Como quem investiga uma foto recém tirada da memória, conferi um primeiro trabalho. Nele, um poema em especial: Os Vazios do Homem. Lembro-me de ouvir comentários inspiradores por ter juntado à minha leitura o poema transcrito em um grande tecido que ficou pendurado na sala feito vela jangadeira.No lugar das palavras “vazio(s)” deixei buracos, cortes de facas no tecido. O poema mostrava concretos vazios, esponja cheia de vazios. Aquele móbile de palavras e buracos, os vazios da alma humana, ficara latejando no refletir sobre todas as coisas. E sobre as palavras. E sobre o arquitetar do poeta.

(...) “Os vazios do homem, ainda que sintam
a uma plenitude (gora mas presença)
contêm nadas, contêm apenas vazios:”(...)
(in Os Vazios Do Homem)

Continuei o navegar. Imaginei cores, tons, vieses, marcas dos papéis das cartas e de toda a herança física interessantemente exposta aos admiradores da poesia e do poeta. Com desespero enternecido pus-me a vislumbrar alguns pertences de João Cabral que pudessem alimentar um pouco a não-visita à exposição. Parecia sentir os cheiros dos objetos expostos. Como isso atiça a nossa curiosidade! E os nossos desejos carentes!

Assisti a alguns vídeos sugeridos. Extrapolaram em deleite compensador e momentâneo. Vale para muitas coisas de nosso viver pessoal e pedagógico. É só clicar e ver. Depois conte para nós. Você se emocionará, por certo, enredado em tão belos depoimentos!

(...) “E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.”
(in A Lição De Poesia)

Sabemos que a obra poética de João Cabral caracteriza-se por um rigor estético.É uma poesia que nos causa estranhamentos porque é essencialmente cerebral.O poeta não recorre ao phatos (paixão) para criar a atmosfera poética, mas a uma construção elaborada e pensada da linguagem e do dizer da sua poesia. Podemos até fazer algum levantamento de palavras usadas na sua poesia: cana, pedra, osso, esqueleto, dente, gume, navalha, faca, foice, lâmina, cortar, esfolado, relógio, seco, mineral, deserto, vazio, fome.

Ler João Cabral é difícil? Talvez seja, talvez não. Descobrir a sua poesia é um jogo interessante a se fazer. Dar-se a conhecer o fazer do poeta visitando alguns de seus poemas e entrando pela porta do como será que ele escreveu, como escolheu as suas palavras e as organizou no branco da pedra do papel é um caminho. É como se a lucidez se entregasse ao fazer poético certo do seu fio e corte.É uma proposta lúdico-pedagógica, a da reflexão sobre a linguagem que abre no seu fazer um leque reflexivo e criador ao mesmo tempo.Oficio e arte na mesma pedra e palavra.

Montar e desconstruir as leituras que vão se realizando entre si, esse jogo - o dizer e o fazer - não é útil para os nossos trabalhos de ensinar?A leitura antiga dilui-se na outra e a reinventa. Fluida e mote.Força e motriz.E assim a poesia se abre de intensas visibilidades. Fico pensando que esse aspecto lógico e matemático da poesia mineral de João Cabral pode chegar às mãos dos alunos num jogo curioso e interessante de sentir e pensar as palavras como algo instigador e lúdico. “uma lucidez que tudo via porém luz de uma tal lucidez que mente que tudo podeis.”

“Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;”(...)
(in A Educação Pela Pedra)

De um sentimento leitor de agora, trazido em tempo do relógio vivido e relembrado, percebo alguns lances dessa eterna brincadeira: o ofício de escrever. Vislumbro sutilezas, galhofas ou ironias e sarcasmos feitos de poeticidade objetiva e extrema que tocam de leve o simples do cotidiano humano, nosso lugar comum.

Um poeta crítico ou um poeta com poeticidade crítica? Jogos e sentidos. E por isso talvez que nos engendra e nos intimida esse fazer poético tão lógico e tão profundo.

(...)Ӄ mineral , por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita.”
(in Psicologia Da Composição)

Fui me deliciando com tudo o que vi no meu passeio virtual. E para quem puder, vale a indicação. Aí vai a ficha técnica da mostra multimídia: Um poema por dia. Está no Centro Cultural da Justiça Eleitoral, no Rio de Janeiro. Com a curadoria de Inez Cabral, filha do poeta homenageado, o evento apresenta fotos, projeções, vídeos e entrevistas com o escritor e também exibe cartas, poemas e manuscritos – em parte inéditos – do acervo da família. A obra Morte e vida Severina, por exemplo, é mostrada em textos, fotos e fonograma da música original composta por Chico Buarque para a primeira montagem da peça, em 1965. A mostra está concebida e organizada em quatro espaços:

Vida e infância: fotos, poemas e depoimentos do poeta sobre sua vida, sua infância. Uma “autobiografia” selecionada por sua filha. Amigos e Vida profissional: fotos, depoimentos em vídeo e cartas de amigos e colegas. Paixões: textos, poemas, trechos de filmes; fotos e música da montagem para Morte e vida Severina (65); o time do América (do Rio e de Recife); a mulher; Sevilha e o Recife. Museu de Tudo - parte “física” do acervo, os manuscritos, as primeiras edições, os textos inéditos. O Centro Cultural da Justiça Eleitoral fica na Rua Primeiro de Março, 42, Centro, Rio de Janeiro. Mais informações: 21-2253-7566.

(...)Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.(...)
(in O Cão Sem Plumas)

E assim foi. Fiz a visita virtualmente. Quem sabe a farei de bom grado e de coração presente no Rio? Confesso que senti falta do imaginado toque perto do olhar. E dos cheiros fantasiosos emanados dos objetos, cenário de singela vida poética deste Severino poeta. Mas, por hora, pude adentrar-me por outras memórias, rios e versos, lembranças e pedras deste singular poeta que nos enobrece de raiz e céu.

E por nisso falar: há alguma mostra em seu lugar que a gente possa conhecer virtualmente?

Antonio Gil Neto

Mais sobre João Cabral de Melo Neto?

Acesse: www.literal.com.br/tag/joao-cabral e veja:

quarta-feira, 7 de abril de 2010

FIGURAS DE LINGUAGEM


2 - Figuras de Linguagem
São recursos que tornam as mensagens que emitimos mais expressivas. Subdividem-se em figuras de som, figuras de palavras, figuras de pensamento e figuras de construção.
Classificação das Figuras de Linguagem
Observe:
1) Fernanda acordou às sete horas, Renata às nove horas, Paula às dez e meia.
2) "Quando Deus fecha uma porta, abre uma janela."
3) Seus olhos eram luzes brilhantes.
Nos exemplos acima, temos três tipos distintos de figuras de linguagem:
Exemplo 1: há o uso de uma construção sintética ao deixar subentendido, na segunda e na terceira frase, um termo citado anteriormente - o verbo acordar. Repare que a segunda e a última frase do primeiro exemplo devem ser entendidas da seguinte forma: "Renata acordou às nove horas, Paula acordou às dez e meia. Dessa forma, temos uma figura de construção ou de sintaxe.
Exemplo 2: a ideia principal do ditado reside num jogo conceitual entre as palavras fecha e abre, que possuem significados opostos. Temos, assim, uma figura de pensamento.
Exemplo 3: a força expressiva da frase está na associação entre os elementos olhos e luzes brilhantes. Essa associação nos permite uma transferência de significados a ponto de usarmos "olhos" por "luzes brilhantes". Temos, então, uma figura de palavra.
Figura de Palavra
A figura de palavra consiste na substituição de uma palavra por outra, isto é, no emprego figurado, simbólico, seja por uma relação muito próxima (contiguidade), seja por uma associação, uma comparação, uma similaridade. Esses dois conceitos básicos - contiguidade e similaridade - permitem-nos reconhecer dois tipos de figuras de palavras: a metáfora e a metonímia.
Metáfora
A metáfora consiste em utilizar uma palavra ou uma expressão em lugar de outra, sem que haja uma relação real, mas em virtude da circunstância de que o nosso espírito as associa e depreende entre elas certas semelhanças. É importante notar que a metáfora tem um caráter subjetivo e momentâneo; se a metáfora se cristalizar, deixará de ser metáfora e passará a ser catacrese (é o que ocorre, por exemplo, com "pé de alface", "perna da mesa", "braço da cadeira").
Obs.: toda metáfora é uma espécie de comparação implícita, em que o elemento comparativo não aparece.
Observe a gradação no processo metafórico abaixo:
Seus olhos são como luzes brilhantes.
O exemplo acima mostra uma comparação evidente, através do emprego da palavra como.
Observe agora:
Seus olhos são luzes brilhantes.
Nesse exemplo não há mais uma comparação (note a ausência da partícula comparativa), e sim um símile, ou seja, qualidade do que é semelhante.
Por fim, no exemplo:
As luzes brilhantes olhavam-me.
Há substituição da palavra olhos por luzes brilhantes. Essa é a verdadeira metáfora.
Observe outros exemplos:
1) "Meu pensamento é um rio subterrâneo." (Fernando Pessoa)
Nesse caso, a metáfora é possível na medida em que o poeta estabelece relações de semelhança entre um rio subterrâneo e seu pensamento (pode estar relacionando a fluidez, a profundidade, a inatingibilidade, etc.).
2) Minha alma é uma estrada de terra que leva a lugar algum.
Uma estrada de terra que leva a lugar algum é, na frase acima, uma metáfora. Por trás do uso dessa expressão que indica uma alma rústica e abandonada (e angustiadamente inútil), há uma comparação subentendida: Minha alma é tão rústica, abandonada (e inútil) quanto uma estrada de terra que leva a lugar algum.


MAIS INFORMAÇÕES SOBRE FIGURAS DE LINGUAGENS


A linguagem científica prima pela exatidão, pela precisão, pela correção, pela objetividade. O texto literário, no entanto, se marca por desvios em relação ao significado das palavras ou às próprias construções.


Por apresentar desvios, que também são conhecidos como figuras, diz-se que a linguagem usada pela literatura é figurada. É isso que vamos estudar nessa parte do livro. Para tal, dividimos essas figuras em grupos.



Metáfora (e suas variações)

Um homem, ao dirigir-se a uma mulher, diz: “Você é o sol da minha vida.”

Considerando que mulher não é sol, percebe-se que esta palavra (sol) está em sentido conotativo, ou seja, figurado. O que ele quer dizer pé que ela “o ilumina”, “o orienta”, “o aquece”, “é o centro de seus interesses”, “o mantém em órbita”...

Enfim, ele se coloca como um planeta, para o qual o sol é o próprio sentido e motivo da existência.

A esse processo de criação lingüística, que envolve uma comparação implícita, dá-se o nome geral de metáfora, a qual, por sua vez, se inclui num grupo mais amplo, o das figuras semânticas.

Vamos, agora, ver as mais comuns.


Metáfora

Troca ou relacionamento de palavras em que há uma construção figurada baseada na semelhança, isto é, um critério subjetivo e de contexto intelectual (não aparece o termo comparativo)

“Qualquer ruído, dizia, era faca em seus ouvidos” (Marina Colassanti)


Símile ou Comparação

É parecida com a metáfora, porém apresenta o termo comparativo presente.

“Partiu-se meu rosto em chispas / como as estrelas num poço”.(Cecília Meireles)


Personificação ou prosopopéia

É um tipo de metáfora em que se atribui qualidade, ação ou condição humana a coisas ou seres não humanos.

“As grandes árvores nem se mexem, pois não dão confiança a essa brisa, mas as plantinhas miúdas ficam felizes”.(Aníbal Machado)


Hipérbole

É também uma variação da metáfora, mas seu nome indica que se baseia num exagero.

“Até nosso céu eles espanaram” .(João Cabral de Melo Neto)

“Não o vejo há milhões de anos.”


Eufemismo


Também é da família da metáfora, mas tem o objetivo de suavizar uma idéia desagradável ou grosseira.

“O meu último sono, eu quero assim dormi-lo:

- Num largo descampado...” (Vicente de carvalho)

Às vezes, o Eufemismo ganha um tom humorístico. A mesma idéia de morte é percebida em:

“Ele vestiu um paletó de madeira”.


Metonímia


É o segundo grande eixo das figuras semânticas. Diferentemente da metáfora, que se baseia num eixo de concentração, a metonímia se caracteriza por uma relação ou troca de palavras em que ocorra uma contigüidade, isto é, uma aproximação objetiva, devido à ocupação de espaços próximos no universo.


“Os olhos claros da mulher pediram-lhe com doçura...” (Carlos Drummond de Andrade)

“olhos” substituem “mulher”


Observe que se trocam (ou se relacionam) as palavras baseando-se na aproximação dentro do universo ou do contexto.

“Abriu uma torneira do banheiro para lavar o sono do rosto”.(Luís Fernando Veríssimo)

Há um tipo especial de metonímia que, na verdade, troca o “todo” por uma “parte”, que tem o nome de Sinédoque.

“O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford”.(Alcântara Machado)


Antítese


O que aproxima as palavras trocadas ou relacionadas é a oposição.

“Abaixo – via a terra – abismo de treva!

Acima – o firmamento – abismo de luz!” (Castro Alves)


Paradoxo

É a oposição de raciocínios, já que há ilogicidade na idéia.

“Estranha paixão: quanto mais ódio, mais amor.” (Fagundes Varela)


Ironia

É, com clara intenção, comunicar exatamente o contrário do que se diz.

“... o velho começou a ficar com aquela bonita expressão cadavérica.” (Stanislau Ponte Preta

ATIVIDADES DE METÁFORA,COMPARAÇÃO E PERSONIFICAÇÃO

Exercícios : metáfora, comparação e personificação
EXERCÍCIO DE APLICAÇÃO
Identificar as figuras de linguagens nas expressões que se seguem:

A guerra é um monstro devorador. (____________________)

A paixão é como um fogo. (__________________)

O mar é a mais larga estrada…(____________________)

Santarém é um livro de pedra. (____________________)

Hoje o vento levantou-se zangado. (____________________)

A formiga recusou aceder ao pedido da cigarra. (____________________)

Os seus cabelos pareciam fios de ouro…(____________________)

Tem o coração duro como uma rocha. (____________________)

Os frutos desta árvore são doces como o mel. (__________________)
Os teus olhos são duas pérolas. (____________________)

As rãs do charco tagarelavam umas com as outras. (___________________)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

POESIA "MISTERIOSA"



Poesia produzida a partir da leitura da obra Mona Lisa de Leonardo da Vinci
Milts de Souza Ladeia¹







MISTERIOSA

Que mulher é essa?
Simples humilde e misteriosa!
Sua vida foi sofrida,
Ou terá sido gloriosa?
Qual a mensagem escondida
Nesta face tão ditosa?!
Seu olhar cheio de segredo
Parece tão distante
Muitos homens desejaram
Mesmo que por um instante
Conhecê-la e abraçá-la
E tê-la como amante.

¹Professora de Língua Portuguesa- São José dos Quatro Marcos – MT
Email: stliml@hotmail.com